O filme coloca questões importantes para vida cívica. Trata de como a lógica do dinheiro se autonomiza diante da lógica da solidariedade e a submete. Mostra o "altruísmo" se expressando na linguagem empresarial do investimento, do custo/ benefício, do retorno para as marcas, sem deixar espaço para muitas considerações éticas. Fala também de todo o segmento de mercado que se criou nos últimos tempos e tem na solidariedade o seu 'business'.
Entretanto, para demonstrá-lo, faz dos segmentos "incluídos", tão canalhas, hipócritas, nojentos e forçadamente indiferentes à dignidade humana dos necessitados, que beira o inverossímil. Um maniqueísmo atroz, que encontra eco em atuações canastríssimas (Oh, Caco Ciocler... você é um bom ator, vai?).
E não é só na realização dos "projetos solidários" que essa falta de verossimilhança se revela. As violências são igualmente in-críveis. O sequestro engajado do "vilão" pelo "oprimido", por exemplo, é algo que só existe nos sonhos do intelectual.
O excesso de malvadeza atribuída pelo filme aos que se guiam pela lógica do dinheiro aparece principalmente no plano do presente (sec XXI). No plano do Brasil da escravidão (sec XIX), com o qual se sugere analogia, há boas seqüências e o discurso do ser humano como mercadoria se ajusta melhor.
Agora, os defeitos não podem esconder os méritos. As questões que movem o filme, em princípio, são boas e politicamente importantes (quem não vai concordar que o nome do filme é brilhante?). Só que a transposição das questões para o roteiro e para atela é mal realizada. Ou ao menos assim senti.
Esteticamente, há alguns planos muito bons e o efeito cambiante da linguagem - que por vezes deixa de ser ficcional e exibe caráter documental - é bastante interessante. As atuações ruins eu atribuo a própria concepção do filme.
Com belos takes em preto e branco, é bonito, sem dúvida.
Mostra italianos complicados de entender. Seja no falar, seja nas atitudes intempestivas. Se a latinidade é um adjetivo cheio de conotações, os personagens do filme são latinos ao extremo.
As ligações familiares são postas a prova com a morte de seu "chefe" e a migração. As tentações da cidade grande se antepõe aos laços. As trajetórias sofrem uma disjunção. A glória de um e a ruína de outro caminham lado-a-lado.
Do irmão galã vem as qualidades mais nobres. Do outro, o vício. E assim, como polaridades opostas em um contínuo, permanecem ligados. No perdão, na dor e na esperança.
Eu torci pelo herói e contra o laço. Sinal dos tempos.
Vale muito a pena pela experiência visual. As cores vem com velocidade e vivacidade. Impossível não pensar na quantidade de trabalho para fazer tudo aquilo. Impossível não pensar no quanto de imaginação antecedeu o trabalho.
A história é bastante simples. Mas ainda sim, vista com a distância que as décadas trazem, revelam elementos bastante interessantes. Comparecem a força de determinadas idéias, um certo utopismo, o impulso contra-cultural e anti-caretice. O que se pretende é a música, a comunhão e que se faça ressoar o som do sim. Idéias que podem ser datadas mas permanecem fortes. Sobretudo quando pintadas em tão vivas cores. A tristeza (cinza e azul) é o que se pretende combater na cruzada do Fab Four. É uma certa ode psicodélica ao belo e à vida.
E óbvio. Tem as canções. Que lindos clipes saem dali! O que dizer da representação das pessoas solitárias de Eleanor Rigby e de tantas outras que seria perda de tempo enumerar? Não me leia. Ouça-as. Veja-as.
Da premissa simples nasce um filme verdadeiramente belo. Tão adorável quanto seu protagonista.
Peter Sellers não está lá pra fazer graça. Tem sim uma atuação brilhante e comovente.
Chance, encastelado a vida toda, sai pela primeira vez para o universo público. Não parece ter uma maturidade cognitiva completa. Não parece conhecer muito sobre o mundo e sobre os homens. E assim sai pro mundo. Nele só encontra conforto olhando para os hipnóticos aparelhos televisores de que tanto gosta.
Ao acaso, Chance recai no mundo protegido dos ricos. E lá Chance vira Chauncey. Se coloca enigmático, tamanha a paz de espírito que transmite.
Sua simplicidade e seu conhecimento dos jardins são lidos como metafóricos. Assim ganha sucesso nacional. O tonto é interpretado como sábio e nos faz pensar nas fronteiras entre uma coisa e outra. Pensar no quanto não sabemos exatamente o que é o profundo e o que é o superficial.
Sua humanidade transborda o tempo todo e remete ao bom selvagem, àquilo que é puro, e que assim contagia.
A cena final é deliciosamente poética. Ótimo filme.
Há um grande número de autoridades. Só de entrar em quadro, se impõem. E nós, tão acostumados a exigir respeito pelas nossas opiniões e decisões individuais, estranhamos. Não passa desapercebido também o jeito de tratar a morte. Para nós, tabu. Para os protagonistas, uma questão estratégica que pode ser discutida nos meios públicos. Para nós, a perda da única coisa que temos. Para os protagonistas, um ato de fé, uma esperança de redenção individual e para o seu povo. Vale a pena acompanhar os personagens olhando sua própria morte de perto por 1 hora e meia. E ver o que tem no fim do túnel.
A exploração da campanha alemã na Copa do Mundo de 1954 não é muito empolgante. E as dificuldades de um país derrotado em Guerra Mundial aparecem muito personificadas no pai do protagonista.
O filme fica no meio caminho de explorar a relação entre esses pontos. Há mediações em excesso que descaracterizam a intenção.
Para quem gosta de futebol, é boa distração. Mostra, sem ufanismo, o sentimento de inferioridade, que nem mesmo o espírito de superação seria capaz de dissipar sozinho. Os alemães mesmos dizem que só poderiam vencer com chuva. E a bola encharcada morre na rede húngara.
Muy bueno. Cumpre com brilho o que promete e está registrado na sinopse. Há ali o mundo das crianças, seu jeito de brincar, de estruturar rivalidades e alianças, de descobrir o mundo. Há pouco a dizer para além disso, porque o filme é bonito e, de certa maneira, simples.
Vendo o filme fiquei pensando como a política é estranha ao mundo da experiência cotidiana. Há um sem fim de filmes mostrando o "mundo das pessoas", suas afinidades, em dissonância com as disputas territoriais, étnicas, ideológicas. Esse é mais um. Um especial, mas se soma a outros. Talvez esteja no ar uma gramática que desvincula política e afinidade pessoal. Como se o mundo das pessoas se construisse para além, e alheio, à política. Fecha parêntese.
Me chamou atenção também como a narrativa se constrói sem dar vantagens de caráter ao personagem mais popular, como costuma ser regra. Dentre os meninos protagonistas - excelentes atores, por sinal - o de maior status socio-econômico (Gonzalo) parece sempre um pouco mais aberto às novas experiências e mais tolerante que o seu amigo mais pobre (Machuca). São suas jornadas que movimentam a narrativa na maioria das vezes. Além de desviar-se dos hábitos mais comuns de pensamento ser louvável por si, isso ganha mais significado quando se compreende que está justamente aí a razão do filme ter o nome do outro menino, ou seja, "Machuca".
Brilhantemente filmadas as cenas de passeatas. Lindo o momento da orgia de beijos com leite condensado. Fortes as cenas da repressão militar, seja na periferia quanto no colégio dos "bacanas".
A trama é a falta de trama, ao menos como se espera de um filme de espionagem. Incompetência, falta de propósito, burocracia, frivolidade e estupidez acontecem. Nada que acontece é realmente importante. E por isso é revelador.
Se você espera por algo a altura do já clássico "Mente eterna de uma mente sem lembrança", esqueça. "Rebobine por favor" é um filme bom para distrair duas horas mortas, não muito mais que isso.
Não me entenda mal. Há coisas boas. Só não tem a originalidade e o vigor do filme que Michel Gondry dirigiu quatro anos antes.
Entre as coisas boas está rever um EUA perdido desde a Era Clinton. A recuperação econômica fez sumir do grande cinema os locais pobres, sujos e simplórios da América. E a locadora está em um desses pedaços perdidos. Gostei.
O mérito mais óbvio do filme está na consagração da paródia "trash" como forma cultural legítima. O grande sucesso das versões "suecadas" no bairro mostra (mostraria) o quanto o trash se tornou um código estético aceito e, mais, desejado pela audiência.
Mas não é só por isso que o filme deve ficar marcado. Tão forte quanto isso é o utopismo romântico das pessoas comuns que se opões aos poderes do Estado e das forças capitalistas. Os habitantes daquele microcosmo não querem ver as produções holywoodianas, querem ver as suas reinterpretações toscas feitas por seus vizinhos; não querem entregar seus prédios para o plano de demolição do poder público, não se entregam nem diante da frieza dos números; querem construir juntos um cinema "puro", que seja feito por eles e para eles.
Embora beire a uma idéia batida, por um lado, e o piegas, por outro, não dá para negar o vigor que existe na demonstração das pessoas comuns vivendo suas questões.
E no que vivem, deliberam sua história coletivamente. Como se não aceitassem a sua condição, se colocam deliberadamente a inventar a trajetória da comunidade e colocá-la na tela.
É essa a metáfora das fitas que se apagam. A rejeição ao mundo real. Quando as fitas perdem seu conteúdo, é uma parte da realidade que desaparece. Os habitantes, no fundo, rejeitam as limitações e as imposições que o mundo lhes apresenta. Libertam-se quando apagam o que lhes foi passado e recriam sua realidade com o apoio do cinema e de sua capacidade de promover a fantasia mais sincera, ainda que mal acabada. É bonito.
Uma nota final: Não consigo imaginar decisão mais infeliz do que a que criou o subtítulo em português. "Rebobine, por favor - Uma Loucadora Muito Louca". Lamentável.
O inadequado ao extremo. Não à toa o personagem é um estrangeiro. É o arquétipo do que não se encaixa, do que estranha e é estranhado.
E ele segue vagando pelo salão. No que tenta se enturmar, se divertir ou se distrair, evade comicamente as boas maneiras. Exceto a introdução, toda ação se passa durante uma festa da alta sociedade holywoodiana e quase tudo que dá errado deve-se ao Indiano interpretado por Peter Sellers. Quando não é com ele, a graça vem do garçom bebum. É essa a trama. Nada mais.
Parêntese: pensei enquanto via como o mundo está mudando. Enquanto no final dos 60 o personagem ridículo é o que não consegue se adaptar aos cerimoniais dos ricos e chiques, nos dias de hoje o mais comum é ridicularizar o pedantismo e a superficialidade desse tipo de gente.
Mas esqueçam isso porque o filme é para ser engraçado.
O filme cresce. Vai de um início onde o ritmo das piadas é um pouco quebrado para um final que se aproxima do absurso. Há beleza na catarse final cheia de espuma.
Mermão, vou te mandar o papo reto: é muito real a parada.
Fui jovem no Rio de Janeiro no final dos 90 e creio que posso dizer: todos os trejeitos, linguagens, explosões e variações emocionais, olhares, empurrões, empolgações, temas de conversa, "zoações" estão muitíssimo bem retratadas.
Talvez não diga tanto a alguém que não viveu esse universo - embora isso seja só uma hipótese minha - mas para mim o filme diz muito.
A trama é secundária em relação aos personagens. O forte do filme, aliás, está no retrato que faz dos protagonistas.
A vontade de "tirar uma onda" está sempre presente. É a motivação básica. A gramática nesse movimento é toda ela profundamente masculina. Sexualidade, agressividade, companheirismo.
Os diálogos guardam sutis e preciosas mensagens sobre as escalas de valores dos rapazes.
Sensacional a presença das "mulheres". São representadas por uma só porque são intercambiáveis. Não são pessoas em sua profundidade. São sempre "uma mulérzinha".
Um filme barato, mas profundamente rico. Faz acreditar no quanto cinema pode ser forte (ao ponto de você acreditar na transpiração dos personagens!) sem recurso a truques caros. É vida na tela. E só.