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  • 1.0 Star
    MCT:
    May 12, 2008
    Sejamos honestos. O thriller não tem sido um dos géneros de eleição da cinematografia gaulesa na última década. Com algumas excepções que se revêem nos trabalhos de Pitof, Besson, Kassovitz ou Jeunet, os franceses habituaram-nos a outros olhares. Por isso, é com um misto de curiosidade e surpresa que recebemos `La Boite Noire` de Richard Berry, que depois de um percurso discreto em França, chega agora às salas portuguesas.

    Trata-se de um filme sobre a recuperação da memória, após um acidente que deixa o protagonista, Arthur Seligman (José Garcia) em coma. E chega a ser estranho a linearidade desarmante com que o set up desta obra nos é dado.

    Planos iniciais à la `Lost Highway`, uns murmurares desconexos na cama de hospital e eis que Arthur recupera e uma enfermeira caridosa lhe dá uma caderninho onde apontou, durante o seu estado comatoso, as palavras misteriosas que proferiu durante a sua `ausência`. É bom de ver que os restantes 85 minutos do filme (o filme tem uma hora e meia) são passados a investigar o seu passado. O seu estado amnésico não lhe permite perceber porque delirou daquela forma, nem porque foi para aquele hospital.

    E se falo na simplicidade de processos é porque a coisa ainda se acentua, sendo que poucos minutos mais tarde Arthur já tem os tradicionais papelinhos com as palavras desconexas afixadas na parede do seu quarto, entrando numa espiral de loucura muito pouco sadia.

    Diz-se que uma pessoa em coma nunca muda no que o define como ser durante o período em que está inconsciente. Apenas se altera a forma como se relaciona com o mundo. Mas se o protagonista não consegue aceder à sua `caixa negra`, nós conseguimos aceder à nossa.

    Por isso, lá nos vamos lembrando de forma bem mais interessantes de construir uma recuperação de estado amnésico em `Memento`, em `Jacob?s Ladder` ou mesmo, num tom e processo inversos, em `Eternal Sunshine of the Spotless Mind`.

    `La Boite Noire` é um filme que nunca chega bem a agarrar o espectador. Dá umas quantas reviravoltas servindo-se de mecanismos narrativos todos eles já explorados. No último quarto do filme a tensão cresce um pouco, mas deixa que um final banal o veja como um mero exercício de género, sem brilho. A montagem é o que já se está à espera, sendo que uma das poucas surpresas surge num piscar de olhos, que tem tanto de inocente quanto de perverso, a `Psycho` do mestre Hitchcock.

    Sendo Richard Berry um semi conhecido actor francês (`Tais-Toi!`, `Un Ange`, deu a voz a Corto Maltese em `Corto Maltese: La Cour secrète des Arcanes`), é estranho que um dos pontos mais francos de `La Boite Noire` seja a direcção de actores. Cenas existem que não estão trabalhadas dramaticamente, soando a artifício pegado. Ainda assim, salva-se José Garcia, num papel onde a parecença física a Robert Downey Jr. deverá ser mera coincidência.?

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